No rastro de Cora Coralina – Literatura e transformação

tacho de cobre (1)

A voz da mulher no quadro literário brasileiro e, particularmente, a voz de Cora Coralina, estabelecem redes de identificação e promovem o desenvolvimento do grupo social a que ela representa e dá voz, extrapolando o espaço do privado em direção ao público. A mulher redefiniu o seu espaço na cidade e hoje ela reconta e reconstrói, cotidianamente, a História social e cultural da cidade de Goyaz, reformulando as relações patriarcais de poder a partir da casa estendida até a polis, ou seja, a rua.

Na cidade de Goyaz hoje se trabalha para a preservação, dentro de uma perspectiva inovadora, de um projeto de desenvolvimento baseado no legado, que sem se convertido em conquistas sociais e econômicas. A cidade de Goyaz, em função da representatividade da obra de Cora Coralina, passou a olhar-se a partir de suas próprias luzes.

A obra de Cora Coralina contribuiu com a revalorização de velhas tradições – como a produção doceira – bem como com a invenção de novas – como, por exemplo, a do Dia do Vizinho. Ela também foi crucial para a re-afirmação das identidades culturais de seus habitantes – como, por exemplo, as celebrações do Dia da Padroeira -, sempre caminhando para além da própria resistência, como o fez.

As postulações de Cora Coralina tornaram-se muito importantes para aqueles que hoje trabalham e sobrevivem a partir deste patrimônio, pois ela resgatou os conteúdos identitários que são preservados na memória coletiva local,
deu visibilidade a eles para além das fronteiras da cidade, e permitiu aos seus habitantes que eles se reconheçam como parte integrante e mantenedora deste capital.

Sim, podemos encontrar o rastro de Cora na cidade de Goyaz, no casco arquitetônico, repassado de conteúdos históricos e cotidianos, como os becos. Ele também se faz sentir nos ícones de pertencimento, que mantêm a sua representatividade até hoje, como o Rio Vermelho e as doceiras.

O rastro de Cora se marca com a presença viva do seu discurso nas festas tradicionais e nas celebrações culturais da cidade, como os Dias da Padroeira e do Vizinho, incluídos no calendário oficial de festividades, em homenagem da cidade a Cora. A fundamentação dessa trindade constituída por obra, mulher e cidade está impregnada de um conteúdo sagrado e cultural que é muito feminino.

A cidade de Goyaz constitui um exemplo vivo e marcante de que o capital cultural pode ser a chave para o desenvolvimento de uma comunidade. Estamos diante de um novo fazer acadêmico que precisa ser apreciado, de um potencial que precisa ser explorado, de um caminho que precisa
ser expurgado de temores e resistências. Estamos diante da necessidade de entender que a transformação das instituições se inicia no íntimo das criaturas, com humildade para a aceitação do novo e coragem para romper e construir paradigmas.

Aceito com alegria dar alguns passos sobre esta nova trilha, perseguindo o rastro de uma doutora em relações humanas, uma mestra em tradições cotidianas, uma artista na invenção de tradições.

Uma resposta a “No rastro de Cora Coralina – Literatura e transformação”

  1. Sempre provocadora e generosa. Cora deixou um rastro em você. Parabéns!

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