Como Lentilhas

COMO LENTILHAS

            A noite parecia grudar na pele, úmida, morna em excesso, sem vento, como se o tempo estivesse esperando algo diferente acontecer. Estava passando o meu primeiro Réveillon na cidade da Manaus, em casa desconhecida, ao lado de dois únicos conhecidos. Fui com o coração livre de expectativas, mas certa de que compartilharia novas amizades e uma bela ceia.

            Chegamos todos juntos e fomos convidados a ficar na varanda ao ar livre, um alento diante do clima abafado e úmido. Importante salientar que ali ficamos até o momento da despedida e isso dificultou muito, qualquer acesso e participação na ceia, que ocorria dentro do imóvel. O que nos restou foram apenas lentilhas, servidas a conta de iguaria preciosa no último dia do ano e para quem não havia sequer experimentado tamanha preciosidade, não me fiz de rogada e aceitei a doação quando foi ofertada, até porque a fome já apertava e eu nutria esperanças em comer outros quitutes típicos daquele dia. 

O grande momento não demorou, após algum tempo de conversas e drinks, a dona da festa, cheia de muitas boas intenções e caridade para a sorte alheia, aproximou-se com três copos cheios de lentilhas. O dono da casa que estava ao meu lado, conhecedor da causa, recusou deliberadamente e nós, informados que aquele seria o melhor prato executado por aquela senhora e ainda, a garantia de um ano de boa sorte, agradecemos a oferenda.

Após a primeira colherada nos entreolhamos, no meio da conversa que corria animada e, vi que algo não estava bom. Dei-me conta de que éramos um grupo com estômagos afinizados e olhares desesperados diante do desconforto generalizado que se seguiu.

E agora, o que fazer com tamanha iguaria dentro da minha boca e com a que ainda restava no meu copo?

O importante, a saber, é que cada um de nós teve uma reação diferente. O primeiro ficou com o copo nas mãos, mexendo a colher de um lado para o outro e não se arriscou a dar outra colherada. O segundo continuou a comer, quase eternamente, uma colherada a cada 40 min. E eu, muito incomodada com o transtorno de ficar segurando o copo ou em deixar o copo cheio fazendo aquela desfeita, comi tudo de uma só vez, a grandes colheradas, engolindo sem mastigar e com a respiração presa.

Ufa, que alívio concluir essa missão. Relaxei, manguei dos demais companheiros que ainda possuíam as suas lentilhas e continuei a conversa, porém, eis que ressurge a dona da festa e olha para o meu copo. Não contendo a alegria e quem sabe o sarcasmo, disse: _que bom que você gostou, vou pegar mais! Os meus olhos suplicantes não evitaram o retorno de outro copo. Meus companheiros ficaram me olhando entre risos e o alívio de terem escapado.

O total da noite foram dois copos de 200 ml cheios de lentilhas e mais nada, não me lembro de ter comido outra coisa naquela noite de Réveillon. Nunca mais consegui comer lentilhas e não foi por falta de oferecimento, é claro.

Desde aquela noite tenho refletido muito sobre comportamentos diante do incômodo e do indesejado. Fato é que tenho tendências a engolir lentilhas de uma só vez e, na maioria das vezes, lá está o copo cheio de novo.

O que aprendi?

Lentilhas, não é sorte é lição de vida.

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