cores

Foto por Nick Collins em Pexels.com

Lembro da primeira vez que abri um pote de tinta guache, foi surpreendente! Com a minha sensibilidade infantil, pude tocar a textura e o aroma dos sonhos, emplastar as mãos, papéis, pinceis, colocar cor e dimensão na minha própria subjetividade. Pude olhar a volta e traduzir em cores, os matizes de cada ser existente, de cada folha, areia, o céu e suas nuvens, as águas, as flores, os insetos, as frutas, as feiras, os gestos, os olhos e pensar… Coisa que sempre fiz, foi pensar.

O que poderia ser mais intenso e criativo do que a minha dimensão especulativa?

Desde então, analiso o mundo pela ótica das cores, dos gestos, dos detalhes: os olhares, as mãos, as calçadas, o vento sobre as águas e as nuvens no pôr do sol. Gosto de ver o despertar das luzes e o acolher das sombras, consigo acordar às 4h e dormir às 5h, posso sair de casa só para correr na tempestade ou silenciar na gritaria das estrelas.

Faz um tempo que me pergunto para onde foi o extraordinário, onde está a chuva que se derrama em rio e desagua no ventre dos nossos destinos? Quando foi que perdemos as cores, a infância, a humanidade, os sonhos, a espontaneidade?

O mundo esqueceu dos seus balanços e estamos discutindo afetos inconsistentes, como devemos ser e nos amar, o comportamento comum diante da escassez… A corrupção das humanidades.

Onde estão a rebeldia e a insensatez? Elas nunca andam só, caminham a espreita, aguardando amarguras para jogar o seu balde de tinta e pintar de firmamento a profecia do agora.

Sigo rasgando os testamentos, sei sorrir e chorar, capturo imagens na alma e suas coragens. As minhas mãos incidem sobre o fogo e levantam o ar, observo essa gente que passa, se rompe e não teme viver. Sou vítima direta da lei de atração, a mesma que expõem os seus pares libertos diante de regras que silenciam as competências e, assim, nós cantamos sobre os escombros, salgamos os pés machucados, olhamos nos olhos e nos beijamos corajosamente sem medo de deixar ir, somos a sede e abundância a abrir janelas.

Tropeçamos em nãos e mesmo assim, nossas mãos seguem insistentes, estendidas sobre o caos: as panelas sem tampa, as canelas em pau, as pedras soltas nas calçadas, o café sem açúcar, as pontas soltas atravessando o mundo com seus acordes e a arte das extremidades. Somos a resistência pelo afeto, a versão tatuada de quem se deseja, os espasmos entre as guerras e os algodões.

Precisamos de realidade, de aproximações, de ir com medo, sorrir para o inesperado, viver para que a vida não viva sua versão em nós. Esta é uma convocatória de quem aprende resistência amando, para os seres que se surpreendem e misturam suas tintas, soltam pipas, caminham de mãos dadas, enlaçam o futuro e dão colo. Busquemos a intensidade reconstruída nos escombros, o sim e o não, o ser … sentindo. A ausência recompondo os perdidos, os solidários que se reconhecem e aqueles que questionam. As sombras caminham com a luz e muitas vezes aprofundam para romper o necessário.

 Não tenham medo de mergulhar!

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