
Inicio esse texto pedindo permissão e em gratidão a Cora Coralina, aos amigos e personagens da Villa Boa de Goyaz que acolhem minhas palavras e enobrecem o meu coração.
Velha casa de Goyaz. Acolhedora e amiga, recende a coisas antigas de gente boa.
Vem de dentro um cheiro familiar de jasmins, resedá e calda grossa – doce de figo ou caju.
Um tacho de cobre areado referve numa trempe de pedras. Uma braçada de lenha e gravetos acende o fogo ancestral.
(Coralina, 2001, p. 105)
Hoje no dia 20 de agosto, aniversário de Cora Coralina (espírito que vive nas terras de Goyaz), compartilho humildemente um pouco da minha vivência e trabalho construído entre as pedras e afetos por Cora, suas histórias e principalmente pelos amigos Vilaboenses.
Cora Coralina, como preferiu se auto-denominar, era chamada pelos familiares e amigos de Aninha. Embora tivesse instrução apenas primária, ela se consagrou como escritora e se manteve doceira de profissão. Publicou seu primeiro livro – Becos de Goyaz e estórias mais – aos 76 anos de idade, porém foi reconhecida como escritora e poetisa em nível nacional, apenas depois que sua obra chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade, quando ela já atingira os 90 anos de idade. (Tahan, 1989)
A obra de Cora Coralina se caracteriza pela espontaneidade, singularidade, delicadeza e pelo retrato singelo das coisas naturais que caracterizam sua terra natal, seus habitantes e a si própria. Seu texto memorialista, histórico, sentimental – tipicamente de autoria feminina – trata do cotidiano de sua gente e de seus costumes.
Decifrar os caminhos da vida de Cora Coralina é adentrar o espaço da memória da cidade de Goyaz, das suas representações e da complexidade dos deslocamentos entre o passado e o presente da cultura que a constituiu.
A cidade de Goyaz, Patrimônio Mundial e Cultural da Humanidade é o grande personagem dos livros de Cora Coralina. A cidade é apresentada e re-inventada através de uma deliciosa viagem no tempo, promovida pelo texto poético, que inclui simplicidade, odores, cores, sentidos e o movimento cotidiano da vida tranquila e saborosa, coisas boas que perpassam toda a trajetória da sua obra.
Em 25 de julho de 1727, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva filho chegou àquela mina e fundou o Arraial de Sant’Anna. Alguns anos depois, a já Villa Boa de Goyaz passou a ser simplesmente cidade de Goyaz.
O discurso de Cora Coralina é faz transformador, apresentando uma nova percepção do conteúdo ordinário, exercendo sua dialética entre o trabalho intelectual e artesanal, na medida em que modifica a própria relação com o trabalho e com a sociedade na utilização dos conhecimentos e vivências que tem de Goyaz.
Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora, sendo a culinária
A mais nobre de todas as Artes.
(Coralina, 1976, p. 83)
Ao analisarmos a contribuição de Cora, podemos dizer que ela sai da esfera da privação e torna pública a sua sensibilidade, que é orgânica e fundamentada na terra. No caso de Goyaz, ela transfere seu potencial e liderança feminina, do seio doméstico para a polis: o lugar dos homens. Cora dá o primeiro passo para a conquista da polis, que se descobre em um novo movimento para suas relações sociais.
Mas… ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo.
O medo que todo homem sente
Da mulher letrada.
(Coralina, 1976, p. 77)
Nesse processo transformador, Goyaz se descobre uma cidade feminina, literária e doceira, e assim se legitima. Goyaz se vê em Cora, a mulher escritora e operária personificada na sua terra mãe.
Nasci antes do tempo.
Alguém me retrucou.
Você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse amém.
(Coralina, 1976, p. 38)
É fato que Goyaz se construiu para além da História oficial, com a sua percepção própria. Goyaz sobrevive através da afirmação da sua identidade peculiar, da sua memória e da sua história atemporal e mítica, elementos fundamentais e fundacionais que encontram continuidade no presente.
Outro aspecto importante de ser apreciado é o papel da mulher na cidade de Goyaz. Podemos observar a predominância das mulheres nos movimentos de preservação da cidade, nos cargos executivos ligados aos projetos com esse conteúdo. As mulheres sempre tiveram papel de destaque naquela cidade, na participação, tanto doméstica, quanto fora dela. A vida de Cora se passou entre mulheres, tornando-se ela mesma um marco de luta pela expansão feminina. O primeiro jornal da cidade foi fundado por mulheres. Podemos afirmar que a cidade de Goyaz é uma cidade feminina.
A mulher vilaboense é uma mulher nascida e criada dentro de um berço cultural de luta pela sobrevivência, de influência matriarcal em sua casa senhorial e sentimental, Goyaz. Cora Coralina é a representação da resistência iniciada dentro da casa e posteriormente fora dela. As mulheres saem do domínio doméstico, para o domínio da cidade, seu berço, sua mãe e essas mulheres tornam-se filhas da terra, filhas dos “reinos de Goyaz”.
A pobreza em toda volta, a luta obscura de todas as mulheres goianas. No pilão, no tacho, fundindo velas de sebo, no ferro de brasas de engomar.
Aceso sempre o forno de barro.
As quitandas de salvação, carreando pelos taboleiros.
Os abençoados vinténs, tão valedores, indispensáveis.
Eram as costuras trabalhadas, os desfiados, os crivos pacientes.
A reforma do velho, o aproveitamento dos retalhos.
Os bordados caprichados, os remendos instituídos,
Os cerzidos pacientes…
Tudo economizado, aproveitado.
Tudo ajudava a pobreza daquela classe média, coagida, forçada a manter as aparências de decência, compostura, preconceito, sustentáculo da pobreza disfarçada.
Classe média do após treze (13) de maio.
Geração ponte, eu fui, posso contar.
(Coralina, 1983, p. 33-34)
A cidade de Goyaz é hoje um território fecundo para a leitura, a literatura, a memória, a culinária e sobrevive a partir de intensos movimentos dos seus habitantes em defesa dos patrimônios – material e imaterial.
Cidade de Goyaz é lugar sagrado, arquétipo de mulher, da identidade dos anônimos que silenciosos fazem a história, de negros que levantaram a Catedral enquanto saudavam Nanã Buruku cantando ladainhas de amor a Sant’Anna! Como uma grande mãe, essa cidade protege seus filhos e os educa com grande sabedoria. É de toda esta sacralidade que emana a cultura da cidade de Goyaz, o “berço da cultura goiana” e este sagrado se refaz através da memória de Cora Coralina.
Casa Velha da Ponte…
Olho e vejo tua ancianidade vigorosa e sã.
Assim a vejo e conto, sem datas e sem assentos…
Velho documentário de passados tempos,
vertente viva de estórias e de lendas…
Minha bisavó falava de seus antigos ancestrais.
(Coralina, 2001, p. 7)
QUE ASSIM SEJA!

Melissa Monteiro
Referências
CORALINA, Cora. Villa Boa de Vintém de cobre meias confissões de aninha. São Paulo: Global, 2001. 1a Edição 1983.
CORALINA, Cora. Estórias da casa velha da ponte. São Paulo: Global, 2001. 1a Edição 1986.
CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. São Paulo: Global, 2001. 1a Edição 1976.
TAHAN, Vicência Bretãs. Cora Coragem, Cora Poesia. São Paulo: Global, 2001.

Deixe um comentário