
“… a única forma de pensar certo do ponto de vista da dominação é não deixar que as massas pensem…”.
Paulo Freire
Quando o tema é educação surgem inúmeros debates sobre a quem esta destinado à função de educar e qual o seu objetivo. Existem discursos e falas do senso comum afirmando que a família e a escola têm papéis dissociados neste processo, bem como delegando unicamente as crianças e aos jovens um sentido futuro para a construção de nova sociedade.
Quem de vocês já parou para refletir sobre educação? Venho aqui dizer que refletir sobre educação não é uma tarefa de alguns e sim de todos nós. A educação é um exercício articulado e integrado de informação, cultura e formação social. Penso que poucas famílias refletem sobre o valor da educação integral.
A proposta do “Programa escola sem partido” me fez pensar e deixar o meu posicionamento aqui como cidadã brasileira, mãe e professora. Não reconheço e não aceito esse programa! Em tempo de golpe político ele é sinônimo de retrocesso. Definitivamente não acredito em um modelo de educação que não compartilha e não reconhece que tanto a família quanto a escola são parceiros na formação de um indivíduo. Não é possível que uma instituição de ensino que tenha em seu espaço a permanência de crianças, tanto em período parcial quanto integral, não seja co-responsável pela educação acadêmica e social de seus alunos, juntamente com às famílias. Ao mesmo tempo, não é possível que as famílias desloquem todo o compromisso e responsabilidade pela educação de seus filhos unicamente a escola.
Penso que a educação é um compartilhamento de ideias, desejos, fazeres coletivos e por isso não diz respeito a um ou a outro. A educação é um processo em construção permanente. Deve ser libertadora e formar indivíduos críticos que saibam pensar e ler o mundo a sua volta.
O Programa escola sem partido é um retrocesso, reflexo de um modelo de sociedade excludente e autocrático. É preciso refletir um pouco para saber que a proposta de neutralidade ideológica é uma falácia, pois por si só já concebe um ponto de vista, neste caso o do conservadorismo, reprodutor de velhas práticas preconceituosas e violentas.
A escola sem partidos busca garantir sob o discurso da imparcialidade, a ideologia de um único ponto de vista, de seu partido único, repressor e castrador.
Como professora universitária, pude observar muitos alunos vindos de escolas “sem partido” com grande dificuldade de posicionamento de suas opiniões e leitura crítica da realidade. Alunos temerosos para se expressarem, serem criativos e transformadores. Alunos com dificuldades de estarem e reconhecerem a vida social e seus participantes. Indivíduos que aprenderam a repetir e não a pensar. Porém, tive alunos formados em um modelo de educação crítico, plural, político e ideológico que mostraram uma capacidade extraordinária de reflexão, pensamento, escolha de seus posicionamentos, criatividade, desenvolvimento acadêmico, reconhecimento e respeito a diversidade.
Ao contrário do que é pregado na ideologia única da escola sem partido, a educação pressupõe que somos seres sociais, políticos em permanente transformação, sendo o professor – educador o veículo da construção conjunta do pensamento que revela as estruturas de nossas bases sóciohistóricas e suas possibilidades dentro de um modelo de contradições. O pensamento crítico estabelece um panorama ampliado de saberes distintos fornecendo ao aluno a possibilidade de discernimento e escolha para construir possibilidades nesse meio.
A educação é sim uma tomada de partidos, pois é preciso superar o ponto de vista único de uma história contraditória que não reconhece e desvaloriza questões a serem incorporadas no currículo escolar de maneira multidisciplinar e já garantidas em Lei, a exemplo das questões de diversidade, gênero, cultura e história negra e indígena.
Afirmo que novos caminhos se constroem hoje, pois somos o futuro que a geração anterior nos destinou e o que estamos fazendo? Todos nós causamos impacto na sociedade e a nossa responsabilidade é coletiva enquanto estivermos vivos, essa não é uma responsabilidade geracional. Não há idade para mudanças e desistências.
O que queremos no futuro é o exercício do hoje. Por isso, esse não é um debate de um grupo de professores, mas de todas as famílias e de todos que se reconhecem responsáveis em educar e transformar. Não é possível negar as desigualdades, as diferenças. É preciso formar indivíduos capazes de compreender a história e as relações que determinam e reproduzem as desigualdades.
Todo indivíduo social é um ser político, se você não for “formado” para pensar assim, alguém exercerá esse papel e pensará no seu lugar e por você!
Pense e reflita! A quem estará destinado o poder da mudança?
Referências
Fonte: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 11ª Edição. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1987.

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