
Lugar guardado e escondido,
reino de paz,
berço de árvores ancestrais.
Rios espelho dos céus,
igapós encantados para toda sorte de belezas e vidas seguindo calmamente o ciclo das estações.
Berço da terra que amanhecida névoa branca, derrama-se em véu sobre o rio negro aos primeiros raios da manhã.
Águas escuras, pintado e Matrinchã de tinta preta quase infinita, em vida que salta aos olhos pelo espelho d’água a celebrar o dia.
Quando descansa, revoada de pássaros atravessam o céu feito gritaria de curumins com asas a perder-se no alaranjar das horas e o ar menos abafado favorece que a vizinhança se avizinhe pelas margens e caminhos das matas.
A noite, o céu é um brigadeiro de estrelas para a lua muito branca em comunhão com as constelações iluminando os corações perdidos.
….
Assim viviam os Wanabí, entre as profundezas e certezas de paz e liberdade. Povo bonito tanto quanto o sol sufocante do meio dia e a lua a meia madrugada.
Corriam como o vento em comunhão de senhoras.
Eram sábios porque sabiam ouvir e observar.
Em seus corpos estavam os registros da própria história.
Durante muito tempo, outros povos indígenas tentaram invadir aquele lugar mágico e expulsar os Wanabí, sem sucesso. Com o passar do tempo, foi sendo construído de geração em geração o mito da força, inteligência e valentia daquele povo guerreiro.
Contam os ancestrais que o povo Wanabí sempre foi valente, forte e vigilante para proteger o seu território. Por isso, todos os temiam, mas nem sempre foi assim…
Certa vez, um grupo de indígenas de outra parte do rio decidiu invadir e tomar as terras do povo Wanabí. Passaram meses planejando tudo.
Numa noite de verão, do outro lado do rio, ficaram esperando as horas e o momento certo para tomarem aquelas terras e também colocar a prova a valentia daquele povo.
Esperaram duas noites e dois dias para invadir a aldeia e na noite da lua alta, um grupo de homens caminhou sorrateiramente por entre as árvores até o centro da aldeia e lá ficaram esperando o melhor momento para atacar.
De repente, tudo escureceu!
A lua parou,
O vento beirou,
A floresta silenciou…
Os homens se entreolharam assustados e o encantamento se fez!
Ficaram parados e mudos por um tempo, até que começaram a ouvir um som muito familiar.
Tum, tum, tum, tum…
– É o som dos tambores! Falou um deles.
E o Tum, Tum, Tum… foi ficando mais forte.
Os índios se entreolharam novamente e disseram quase ao mesmo tempo:
– São eles, os Wanabí!!!!!!!!!
A lenda era verdadeira e eles estavam vigiando as suas terras.
-Estão acordados!!!!!!
E correram, correram, correram pela floresta adentro, tropeçando nas raízes das árvores até a beira do rio. Sem dizerem uma palavra, pegaram as canoas e atravessaram o rio de volta para a sua aldeia.
Minutos depois, o vento subiu, a lua alta ressurgiu no céu e sua luz infinita clareou toda a aldeia.
Lá tudo estava calmo, só era possível ouvir a coruja e um tum, tum, tum saindo dos corações dos guerreiros que dormiam serenos em suas redes.
….
Assim viveram os Wanabí e ao anúncio das estações chegou o Japú que sobrevoou a aldeia… E lá estava ela, a floresta densa e memorial, a contar as histórias daquele povo presente e passado.
E eu caminhante de pés descalços na areia branca voltei o olhar a aurora para o verão que havia chegado nos braços recuados do rio.
A vida migrava inda e vinda traçando luzes singelas na existência dos corações anelados e no cultivo divino em memória daquele povo.
Olhei triste e respeitosa para o rio, busquei sinais de valentia. Submergi em poesia no coração da grande floresta buscando um dia, quem sabe, ser resgatada.
Fotografia:http://sorriaepuka.blogspot.com.br/2015/04/epuka-um-motivo-pra-sorrir.html

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