
Existiu não faz muito tempo um Mundo que se encontrava perdido e ninguém conseguia mais encontrá-lo. Diziam que ele era tão grande que confundia e tão cheio de vida que os corações cantavam ao som dos ventos.
Múltiplo, generoso, acolhedor. Para alguns, sinônimo de poder e riqueza. Apenas alguns homens e mulheres podiam senti-lo, inteiro, na palma de uma mão. Mas, mesmo assim ele escapou.
E foram o poder e o tempo que confundiram na imensidão os homens e fizeram com que, sem perceber, o Mundo se perdesse entre augúrios e lamentos dos que quiseram dominá-lo.
Depois, como acontece aos causos perdidos, fez-se a história…
Durante as grandes estações, não se sabia mais ao certo o lugar daquele Mundo e a memória de todos foi diminuindo até o tamanho de um bacuri.
Alguns mestres guardaram o pequeno fruto precioso e sagrado, pois Nele continha todo o caminho possível dos espíritos para o Mundo perdido. Decerto que os invernos se seguiram rigorosos e os dias passaram confusos nos corações humanos, caminhantes sem sentido.
Aos mestres coube esperar o momento em que do fruto resplandeceria o futuro, mas a maioria dos homens já havia esquecido e dia após dia traçavam passos ao vento perdido de suas emoções.
Não se sabia ao certo como fazê-lo voltar e lá no fundo o vazio clamava por respostas…
Foi após o nascer do sol de horas alongadas que aconteceu o que ninguém esperava… Um dos Mestres, conhecedor da memória, cansado de silêncio, saiu para caminhar e conseguiu ver o que poucos conseguiam: o espírito dos homens.
No tempo desse fato, coisas e outras que não cabem em devaneios descritivos, um broto surgiu da terra quando menos se esperava e o Mestre parou.
No centro do terreiro viu o curumim sentado na Terra. Ficou tanto tempo que entardeceu…
Sabe-se, que foi durante o entardecer quente e úmido do outono que o caminho apareceu e de relance, pelas asas de um pássaro cinza e branco com as pontas das asas azuis. Ele chegou feito vento adormecido, rasante, ecoando um canto tão forte, tão forte que lembrava a morte.
Era expoente de natureza, forte no calor escaldante em época de corações frios e fez com que a maioria dos homens tapassem os ouvidos e escondessem os rostos amedrontados. O
Mestre continuava parado na dimensão do curumim na Terra.
E foi, exatamente no segundo eterno do escurecer, que o pássaro pousou na mais alta senhora Samaúma. O curumim olhou para o Mestre, e este agora sabia que o momento havia chegado, por que o espírito de um único homem havia relembrado.
O mestre caminhou lentamente aos pés da grande mãe, apresentou e devolveu o bacuri guardado, que volveu de memórias a atmosfera.
Naquele momento, o curumim e o Mestre puderam ver o Mundo, uns aos outros e os próprios pés. Tudo coube na palma de uma das mãos. A memória retornou e o mundo enfim ressurgiu para aqueles que o reconheceram.
O fruto se abriu em chuva abundante e cresceu o coração do curumim. O pássaro se aproximou e o levou ao topo da grande árvore.
O Mestre ficou na terra e a cada gota que caía uma porta se abria. Aos poucos todos saíram de suas casas e a chuva dançava nos cabelos e olhos enternecidos na imensidão.
Choveu por três dias e três noites. O fim se mostrou no caminho e o fruto se abriu. O mundo retornara? Muitos dizem que sim, muitos ainda não sabem.
Depois da chuva o Mestre Pajé adormeceu, o curumim seguiu seu rumo e os homens ficaram repletos de significados.

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