Identidade cultural – Fonte de poder e transformação

Identidade2016

A cultura fornece sentido a existência dos sujeitos, é o elemento formador da identidade e ampliador das questões do bem-estar coletivo, de integração e de cooperação mútua. O resgate de seus elementos fundadores é capaz de impulsionar a permanência das estruturas que fundamentam suas raízes e impulsionam o desenvolvimento. O resgate e a valorização da identidade cultural é um patrimônio imaterial que deve ser preservado, pois possui respostas relevantes para a transformação social e histórica de grupos, comunidades e nações.

A nova forma de poder reside nos códigos da informação e nas imagens de representação em torno das quais as sociedades organizam suas instituições e as pessoas constroem suas vidas e decidem o seu comportamento. Este poder encontra-se na mente das pessoas. (Castells, 1999, p. 423)

A afirmação e a reconstrução da identidade passa a fazer parte de um processo que organiza a comunidade, é o elemento chave na organização de sujeitos coletivos, abrindo espaço para a coesão social e a autonomia local. O resgate e a reconstrução da memória histórica e cultural edificam significados, formando redes de interesse local, minimizando conflitos e viabilizando projetos – finalidade das resistências. A memória que preserva é a mesma que estimula e fomenta a organização das redes de identidade.

Quando o mundo se torna grande demais para ser controlado, os atores sociais passam a ter como objetivo fazê-lo retornar ao tamanho compatível com o que podem conceber. Quando as redes dissolvem o tempo e o espaço, as pessoas se agarram a espaços físicos, recorrendo à sua memória histórica. (Castells, 1999, p. 85)

A “identidade cultural” é, pois, o elemento chave que impulsiona o potencial humano ao desenvolvimento e a preservação dos seus patrimônios –  material e imaterial – com vistas à afirmação de sua diferença, no sentido de constituir um legado cultural que potencialize seu conjunto de ações afirmativas, que contribua para a superação das desigualdades e seja possível construir um projeto viável de sociedade.

Minha bisavó, Mãe Yayá, passava seu dia sentada numa antiga mala encourada, e sobre esta estendido um coro de lobo.
E meu avô, todos os dias, antes de outra iniciativa, ia tomar bênção à velha mãe, saber o que lhe faltava.
Daquela bisavó emanava um cheiro indefinido e adocicado de folhas murchas a que se misturavam fumo desfiado, cânfora e baunilha.
Sua sala, onde passava o dia, tinha pelos cantos amarrados, murchos, pendurados de folhas diversas, congonha-do-campo, arnica da serra, folha-santa, Artemísia e gervão, arrancadas com as raízes que eram sempre renovadas pelos moradores que traziam seus agrados e respeito.
Tudo isso impregnava seus aposentos de um cheiro característico e vago que gostávamos de respirar e que, dizia meu avô, dava saúde à velha mãe.
Todos na casa e na fazenda lhe pediam a bênção e veneravam a grande anciã.
Minha bisavó não falava errado, falava no antigo,
Ficou agarrada às raízes e desusos da linguagem
E eu assimilei o seu modo de falar.
Ela jamais pronunciou “metro”, sempre “côvado” ou “vara”,
Nunca disse “travessa” e sim “terrina”, rasa ou funda que fosse…
…Sobraram na fala goiana algumas expressões africanas, como inhô, Inhá, Inhora, Sus Cristo. (Coralina, 1983, p. 58-62)

Estamos diante da necessidade de entender que a transformação das instituições se inicia no íntimo das criaturas, com humildade para a aceitação do novo e coragem para romper e construir paradigmas. O mecanismo de formação da identidade está sedimentado dentro da estrutura de constituição do sujeito, através do seu legado histórico e cultural e é a partir do momento que este sujeito se identifica como possuidor desses elementos, que as redes de significados individuais e coletivos são construídas e solidificadas.

Fontes
CASTELLS, Manuel.. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 3 vols. O poder da identidade. Vol. II. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
CORALINA, Cora.. Vintém de cobre meias confissões de aninha. São Paulo: Global, 2001. 1a Edição 1983.

 

Deixe um comentário