Os velhos de nossa aldeia contam que a vida começou no oco do pau de paxiúba. E que lá, na escuridão moravam duas centopeias chamadas de Kaini e Yanki (MACUXI, 2010, p. 5).
Para nos aproximarmos respeitosamente da literatura infantil de autoria indígena —no afã de apre(e)nder dela saberes ancestrais indígenas (ou “tradicionais” para as ciências), que estão preservados na memória e vem sendo transmitidos através da palavra pelos seus detentores— é imperativo estarmos dispostos a receber suas histórias, indistintamente, como vividas e criadas, sem nos questionarmos sobre sua veracidade ou factibilidade mundana.
Neste sentido, o critério de verdade a nortear nossa leitura desta produção deve, necessariamente, estar pautado pela premissa de que tudo aquilo que a imaginação humana é capaz de conceber no plano das ideias se fundamenta na experiência vivida e vivenciada do seu criador, sem importar o quanto venha a ser abstrato ou intangível no mundo dos homens.
A sabedoria no mundo indígena repousa nos elementos constitutivos da Mãe Terra, sendo preservados e protegidos pelos seus guardiões. Além dos próprios homens e mulheres indígenas e das entidades sagradas da sua cultura, o mundo físico em todas as suas dimensões oferece um conjunto de elementos que são tratados pelos povos indígenas como portadores de poderes intangíveis e transcendentes.
Os autores indígenas lembram a sociedade que é preciso evocar a Mãe Terra para atentarmos para o fato de que somos parte de um todo único com muitas possibilidades a serem conhecidas. Eles buscam demonstrar que é preciso (re)conhecer os mistérios dos saberes indígenas para compreender o valor dos indivíduos que detêm chaves ancestrais para a leitura dos segredos da Mãe Terra.
“Meu pai me lembrou que o sonho é para nós parte integrante de nossa vida e que, sem ele, nosso corpo estaria preso ao chão e não compreenderíamos nossos costumes, nossas crenças, nossas histórias, nossa origem”. (MUNDURUKU, 2001, p. 20)
Referências
MUNDURUKU, Daniel. O diário de Kaxi. São Paulo: editora Salesiana, 2001.
GRAÚNA, Graça. Criaturas de Ñanderu. São Paulo: amarilys, 2010.
MONTEIRO, Melissa Carvalho Gomes. AMU ITÁ TETAMA Literatura infantil de autoria indígena como projeto político de (re)construção da imagem histórica e da autoimagem dos povos indígenas do Brasil. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2015.


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